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Lago Encantado PDF Imprimir E-mail
Escrito por Emilio Miranda   
Qua, 19 de Outubro de 2011 00:43

A minha ligação com a gruta de Ubajara é de longa data. Para aqueles que não a conhecem sugiro uma visita lá quando forem ao Ceará. Ele fica no município de Ubajara, e o caminho é a BR-222 até Tianguá, depois à esquerda numa rodovia estadual. Hoje a gruta fica num parque federal sob a guarda do Ibama. Tem bondinho e uma infra-esrutura razoável para o turista.

A primeira vez que lá estive, ainda era menino e foi muito marcante porque até hoje lembro do passeio. Como é bonito o Ceará! Engana-se o turista que pensa que lá só tem praias. E aquela região, o maciço de Ubajara, é muito especial. É uma cuesta que forma a divisa entre o Ceará e o Piauí. Ao norte ela é bem alta e fica próximo à Camocim. Ela vai baixando de altitude para oeste e em Ubajara a encosta chega a 800m de altura. O maciço é abrupto do lado cearense, mas do lado piauense ele vai diminuindo a altitude lentamente. No lado do Ceará existe um contraste: para o leste, na direção de Irauçuba, a planície seca e para o oeste a encosta com suas lindas matas, onde reinam aqui e ali os babaçus como enfeites, e as cachoeiras. Ainda tem o cheiro. Um cheiro de palha misturado com o da terrá úmida, muito diferente do cheiro cáustico da caatinga. Estes cheiros da serras cearenses sempre remetem-me, não sei porque, aos índios que aqui viviam antes do aparecimento deletério dos lusitanos que, como seus machados e arcabuzes, ceifaram as matas e mataram os bichos e as gentes que viviam em tão aprazíveis lugares deste lindo Brasil.


Lembro-me bem do caminho que fizemos para descer até a gruta lá pelos anos dos 1968 ou 1969. Não foi fácil. Quase tivemos um acidente grave com o meu amigo Everardo que desequilibrou-se e caiu na ribanceira. Os galhos e as pedras o seguraram e nós o ajudamos a subir, puxando-lhe pelos braços, pés e pernas. Por sorte, só alguns arranhões sobraram para todos, além do susto, mas não por muito tempo. Logo chegamos a um riacho no sopé da serra que corria célere entre as pedras. Uma delas era imensa e o riacho formava um pequeno lago lá embaixo depois de passar pelo seu lombo como para repousar da corredeira. Aí não teve para ninguém, foi um tal de escorregar na pedra para cair lá embaixo que os arranhões da queda lá em cima somaram-se a outros. Mas ninguém sentiu nada além da alegria e do folguedo infantil em ver-se num lugar tão aprazível.

Fizemos uma visita à gruta, depois do banho, e dormimos na sua entrada. Estávamos exaustos. A entrada da gruta era ampla e convidativa. Toda vez que a vejo lembro que além de nós, os índios dormiam lá o que me dá algum conforto por, de alguma maneira, ter conhecido o seu modo de vida. O amplo terraço da entrada dá para uma vista do pé da serra e da caatinga também. O chão é diferente, um barro muito fino, parecendo que foi alisado.

Comemos o quebra-jejum pela manhã e ficamos por ali descansando para a escalada de volta a Ubajara. O filho do guia, no entanto, ofereceu-nos algo mais interessante do que ficar olhando para os morcegos que entravam e saiam da caverna. Ele disse-nos que tinha um salão lindíssimo e que seu pai não nos levara até lá porque já íamos embora. Depois de rápida deliberação, saímos de fininho sem que os adultos percebessem. Tomamos o caminho que já tínhamos percorrido no dia anterior pela manhã e, à certa altura pegamos uma variante que nos levou para um outro salão, muito bonito realmente, com formações que pareciam flores imensas de barro. Finda a nossa curiosidade tomamos o caminho de volta. Ou pensamos que tomamos, pois não o encontramos. A grande sala tem várias saídas e o nosso pequeno guia, a princípio resoluto, enfim sentou-se numa pedra e confessou que não sabia qual daquelas era a saída que nos levaria à entrada da gruta. Ficamos ali quietos, depois de algum tempo começaram uns choromingos. Eramos quatro dos quais só lembro-me do Everardo. Ficamos lá por um bom tempo, até que vimos uma claridade do lampião numa das passagens. Lembro de ter ficado com medo durante a espera, mas não apavorado. A gruta parecia-me estranhamente familiar com a sua escuridão de sepulcro.

Depois que nos encontraram, o guia nos levou para conhecer um pequeno lago. Ele fica numa parte bem interna da gruta e o seu caminho se faz, em parte, por sobre um rio subterrâneo dentro de um túnel de pedra.

Muitos anos depois, provavelmente uns dez, tornei a voltar para a gruta de Ubajara. Desta vez, um rapaz cuja magreza traía o vigor próprio desta idade. Desci para a gruta pelo bondinho que se precipitava pelos despenhadeiro de 800m de altura. Fiquei lá olhando as lindas cascatas e a procura da trilha que fizera a tanto tempo e custo. O condutor do bondinho apontou-me uma encosta, mas eu só via a mata que tudo cobria.

Entrei na gruta com o ticket comprado lá em cima. O guia esperou mais uma viagem do bondinho para formar o grupo. Entramos na gruta e um dos primeiros lugares que fomos foi o salão com as rosas no teto, aquel que me perdi. Depois seguimos para a parte mais baixa da gruta e quando chegamos na rampa de acesso ao lago, não lembro bem como foi que fiz, mas saí do grupo discretamente e fiquei no alto da rampa até eles se afastarem. Sentia saudades do pequeno lago. Saquei a lanterna e, resoluto, desci facilmente a rampa em meio aos pedregulhos. Atrás de mim a escuridão se fez porque o guia apagou a iluminação da rampa lá em cima. Estávamos eu a gruta tão somente.


Achei a entrada facilmente tomei o caminho da esquerda como me ensinara o velho guia do lampião. O riacho corria célere por baixo de meu corpo. Não reconheci o túnel pois pareceu-me mais estreito e mais baixo, com o teto muito irregular. Depois de um percurso longo, cheguei ao pequeno lago. Ele estava lá e fiquei impressionado como a minha lembrança era precisa. Na verdade, eu lembro dele até hoje mais de quarenta anos depois. Antes de banhar-me, foquei a lanterna para cima e vi o que pareceu-me um batente. Fiquei matutando se lá estaria uma caverna imensa que o velho guai falara a tanto tempo. Mas, não tinha como subir e resignado fui tomar um banho no pequeno lago. O lugar não parecia-me ameaçador e, decididamente, eu não tinha medo de estar lá, pelo contrário, sentia uma mistura de saudade e felicidade infantil. Satisfeito, vesti a roupa e peguei a lanterna para voltar. Foi durante o caminho de volta que a minha imprudência junto com a minha audácia e inexperiência apareceu. A luz da lanterna começou a ficar fraca, as pilhas estavam descarregando e eu não tinha outras de reserva. Comecei a restejar mais rápido, mas não teve jeito, a luz foi se apagando até que o último fio alaranjado escapou do foquite. Vi-me, então, na completa escuridão. Surpreendido, notei que não estava apavorado. Com medo, como da primeira vez mas não apavorado. Rapidamente, tomei a decisão de sair de lá vivo o que me fez esquecer de tudo o mais e pensar no que faria. A primeira coisa que fiz foi colocar a mão direita na parede e não tirá-la de lá. Se eu passasse direto pela passagem eu poderia ficar perdido. Depois, repassei mentalmente o percurso, procurando lembrar se existia uma outra saída. Não lembrava. Então, com esta certeza comecei a rastejar com a atenção voltada totalmente para minha mão direita. No mais só o barulho da água que corria fria abaixo de mim. Finalmente, cheguei na abertura. Ela pareceu-me exatamente como eu a imaginava, baixa e estreita. Eu consegui chegar na saída do túnel do riacho só que acima de mim reinava a escuridão e o paredão de pedras. As luzes estavam desligadas e eu não sabia por quanto tempo. Comecei, então, a processar a rampa a minha frente. Lembrei-me que a disposição das pedras enormes impedia mais que uma passagem segura. Ou seja, deveria ter uma só passagem para cima. Era uma trilha no meio das pedras com uma outra pedra a ser transposta. Coloquei as duas mãos a minha frente, percorrendo o chão em arco de um lado a outro da entrada que estava às minhas costas. Percebi a leve cavidade da trilha, ela estava bem na minha frente. Comecei a subir. Qualquer discrepância poderia perder-me. A subida é íngreme mas cheguei ao pequeno platô e fiquei impotente, esperando como da primeira vez. Estava ciente que o próximo grupo poderia custar muito, até mesmo vir no dia seguinte e por isto acomodei-me o melhor que pude e esperei. Tive sorte, pois não custou muito e vi uma claridade no fundo de uma das entradas e as vozes do grupo.

Não lembro o que ocorreu no encontro. O guia deve ter estranhado aquele rapaz sentado alí e todo sujo de barro. Devo ter confessado o delito, mas esta parte não lembro. Tive sorte do pessoal não ter corrido com medo de uma alma penada.

Voltei várias vezes para a gruta. O lugar é lindíssimo. Hoje a pequena passagem é "Verbotten" (terminantemente proibida) para os grupos de holandeses e alemães que vão lá as vezes com mais frequencia que os brasileiros. Mas, toda vez que vou lá lembro-me com um sorriso que estive perdido duas vezes naquelas galerias e que tomei banho duas vezes no pequeno lago escuro que habita os meus sonhos desde então.

Última atualização em Ter, 25 de Junho de 2013 13:20
 

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