Emilio Miranda

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Para Yoani, PDF Imprimir E-mail
Escrito por Emilio   
Sex, 01 de Março de 2013 11:40

 

Lá pelos idos 1977, eu estudava alemão na Casa de Cultura Alemã da Universidade Federal do Ceará. O Brasil vivia uma ditadura. Eu teimava em desobedecer meus pais estudando alemão. Complicou a minha vida pois bagunçou o meu inglês.

Bom, um dia o diretor da Casa convocou as turmas mais avançadas e os professores para uma reunião. Fiquei curioso, pois não me lembrava de ter acontecido antes. Ele abriu a reunião dizendo,

 -"Se não todas, mas provavelmente a maioria das pessoas que falam alemão em Fortaleza estão nessa sala."

O fato é que íamos receber a visita de uma orquestra sinfônica alemã e o governo do estado pediu ajuda para a Casa de Cultura Alemã pois os músicos eram monoglotas. Talvez um ou outro soubesse russo o que não adiantaria por aqui. A parte embaraçosa da mensagem veio a seguir: a orquestra era da RDA. Bem, você sabe o que é RDA, mas como essa carta é pública apesar de ser para você, penso que terei de explicar para o jovem leitor. A RDA era a antiga República Democrática Alemã. A Alemanha comunista.

Apesar de ter 17 anos eu sabia o que estava se passando no Brasil. A guerra suja no Araguaia, a caçada da OBAN em São Paulo, DOI-CODI e tudo mais. Isso porque eu gostava de rádio. Eu até consertava-os ganhando uns trocados. Eu ouvia as rádios de Moscou, Tirana e Pequim. Quem me passou os prefixos e as horas foi um amigo comunista que eu conhecia na época. O seu nome era Evandro Holanda lá do Quixadá. Ele vivia recluso na bela fazenda Logradouro que ele herdou do pai. E ele estava vivo porque os militares brasileiros sabiam que ele tinha sido expulso do Partido Comunista, o Partidão, mas não sabiam o porque. Eles o prenderam e não foi necessário torturá-lo: bastou retirar dele o remédio de asma. Ele disse-me que foi expulso do Partidão por que descobriu um desvio que os dirigentes do PCB no Ceará estavam fazendo com o dinheiro que eles recebiam da URSS e de Cuba. Ele e o outro foram expulsos quando quiseram denunciar os fatos.

Desculpe-me a digressão. Fui designado para acompanhar um jovem violonista. Ele era pálido e muito reservado. Só falava quando eu me dirigia a ele. Evitava olhar nos olhos das pessoas. Finalmente, eu conhecia um comunista estrangeiro. Um dos que moravam na cortina de ferro. Todavia, ele pareceu-me muito pálido e sorumbático. Esquisito até. Sucede que depois dos ensaios, eu levava-o para um barzinho invariavelmente na beira da praia. Convidava alguns amigos e o alemão foi relaxando. De repente, percebi que ele estava olhando, daquele jeito que só os homens olham, para uma amiga minha. Aí não teve outra, a cearense fagueira, de pele bronzeada e andar sinuoso engraçou-se do alemão branco que nem uma vela já ficando vermelho por causa do sol de Fortaleza. Desculpe-me o trocadilho, era a pele dele que estava ficando vermelha pois eu não cheguei a perguntar se era comunista. Eu acho que eu não quis embaraça-lo. Percebi que o tema era tabu. 

Um pouco antes dele ir embora ele pediu-me algo, muito reservadamente. Foi uma das poucas vezes que ele dirigiu a palavra para mim. Ele queria uma calça jeans. Isso, uma calça jeans. Perguntei se não tinha por lá e ele disse que sim. No mercado negro. Muito caro e perigoso. Ao ser indagado qual era o problema, ele disse-me que o jeans representava a tirania "yanque". Representava o descabelado mundo capitalista. Não percebi convicção na sua voz. Ele falava comigo o "Hoch Deutsch". O alemão culto que eu tentava replicar e que não era-me muito estranho pois era o que eu aprendia. Percebi desdém na sua voz. Foi institiva a percepção pois, tem algo na linguagem humana que não está na gramática.

No dia que ele foi embora, ele fez questão de dar um presente para minha família. Ele tocou violino para nós. Eu nunca tinho ouvido um violino de perto. Foi lindo. Fiquei muito tempo com a lembrança. A última peça que ele tocou foi uma peça comovedora. Foi como uma despedida dele do Brasil. Era linda e ao mesmo tempo aterradoramente triste. Pungente. 

Yoani, talvez você entenda o comportamento do alemão. Talvez você entenda por que ele não tocou uma polka ou uma valsa vienense para nós, uma música alegre, vibrante como o sol do nordeste que você a pouco conheceu. Lembrei-me dele quando você disse aqui no Brasil que o povo cubano ficou triste com esse tempo todo de ditadura. Eu entendi quando você falou. Eu também era reservado quando vivi na ditadura. Não tanto como você e o jovem alemão que conheci. Percebi em você a conduta e a expressão corporal da contrição e foi como entrar num túnel do tempo.Yoani, eu fiz uma promessa de nunca perder uma votação, caso um dia elas voltassem plenamente ao Brasil. É difícil manter essa promessa com a classe política que temos por aqui. Os jovens que lhe atormentaram, têm a felicidade de nunca ter vivido numa ditadura. E espero que continue assim.

Despeço-me com um grande abraço, e espero que você possa um dia cantar um "son" com alegria 

Emilio

 

 

Última atualização em Sex, 01 de Março de 2013 14:05
 

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