Emilio Miranda

Página Pessoal

Procura

Já leram esse artigo: 973

Who's Online

We have 24 guests 1 members online

Formulário de Login



Aventura Nipônica em Sampa PDF Imprimir E-mail
Escrito por Emilio Miranda   
Dom, 21 de Outubro de 2007 21:34

Todo mundo sabe que tem japonês à beça em São Paulo. Mas, a quantidade de parentes deles que vêm conhecer a Paulicéa Desvairada é assustadora...


Um amigo meu nissei contou-me esta história. Para preservar a sua identidade chamarei-o de Kazuo.

O Kazuo estava esperando uns primos estribados que vinham do Japão, via EUA. Era a primeira vez que estavam vindo conhecer as américas. Ambas, a do norte e do sul. A expectativa não era lá das melhores já que sabemos que os ianques têm mais bala na agulha: Cadillac, central park, Broadway, estas coisas chiques de gringo. Se bem que São Paulo no quesito viaduto, amontoado de prédio e engarrafamento não fica muito atrás de ninguém não. É certo que é engarrafamento de Gol e Mille, mais é engarrafamento de qualquer jeito.

Estava lá o nosso nipo-herói nestas conjecturas quando o vôo chegou. A recepção foi meio confusa por que japônes-do-Japão quer se abaixar e japônes-de-São-Paulo quer logo agarrar na mão. Mas, estavam lá eles na Dutra devidamente encapsulados no Gol do Kazuo (japônes não pode reclamar muito do Gol por que foram eles que inventaram a classe Key de automóveis minúsculos, na qual, o Suzuki Vitara é o modelo mais espaçoso). Aquela brisa meio cinza com cheiro cáustico entrando pela janela e batendo direto na face redonda do japônes visitante.

Como era cêdo e os nipônicos pareciam estar bem animados, o Kazuo levou-os para dar um tour em Sampa, como que para mostrar a cidade. Tour em Sampa é sinônimo de engarrafamento, e logo estavam os três entalados na 23 de Maio. Engarrafamento em São Paulo é uma beleza. Aquele marzão de carros parados e as motos a 100Km/h no meio deles, rodeado de prédios a por todos os lados. De vez em quando, ouvia-se um estalido seco: era um motoqueiro detonando um retrovisor de um carro qualquer. Outras vezes um estalido sêco e um estrondo: era um motoqueiro que se desequilibrou ao tentar quebrar um retorvisor e se estatelou nos carros da frente. Certo momento, o nosso anfitrião foi interrompido em suas explicações. Uma loiraça num mercedes-benz prata conversível parou do lado do primo japônes, aproveitando um avanço da coluna de carros, e sapecou com um sorriso maroto nos lábios,

 -Como é que chego na Brig Luis Antônio?

O primo-japonês-da-janela engasgou. O Kazuo e o primo-japonês-detrás também. Os três ficaram assim meio que em suspensão. Um átimo depois o Kazuo recobrou-se do estado contemplativo e raciocinando rápido,

 -Dona, a senhora está com sorte. É só pegar aquele acesso alí à direita, passar pelas praças Einsenhower e Carlos Gardel e na praça Armando de Sales dobrar a direita na Manuel Nóbrega e depois a primeira a direita que a senhora chega na Brig. Luis Antônio.

A gata esboçou um sorriso felino e, ato contínuo, descartou os três acelerando a mercedes e trancando os carros que vinham atrás e à direita dela. Silêncio tumular dentro do Gol. Seguido de muxoxos sem graça e lá estava o nosso trio circundando o parque Ibirapuera com seu enorme jafariz plantado no centro da lagoa.

Embicaram em direção à marginal Pinheiros quando um dos japoneses reconheceu o nome do Ayrton Senna na boca do túnel. Foi uma alegria geral, já que o Senna foi campeão mundial usando motores Honda e é bem conhecido pelos nipônicos. Quando chegaram na marginal, tome outro engarrafamento. Agora foi a vez do japonês-do-banco-detrás falar em inglês,

 -Muito estranha esta avenida. Só tem uma mão. Em Tóquio uma avenida deste tamanho tem mão indo e voltando.

O Kazuo, pacientemente, explicou que a outra mão da marginal ficava do outro lado do rio Pinheiros. Os japas ao constatarem aquilo ficaram impressionados com a dimensão da via. E quando estavam neste parlatório, uma SUV preta, imensa parou do lado do primo-japonês-da-janela. O vidro com pelicula preta deslizou abaixo e uma linda morena de olhos verdes cintilantes dirigiu-se ao primo-japonês-da-janela. Desta vez, o Kazuo teve de se debruçar sobre o colo do primo por que a janela do SUV era muito alta. Depois dos esclarecimentos, ela deslizou a janela para cima, deletando os três de sua memória e sem notar a cara redonda e deformada do japonês-do-banco-detrás colada no vidro lateral do Gol, sorvendo aquela beleza exótica até a ultima fresta.

Bom, o resto do passeio foi animado. A conversa girou em torno dos encontros com tão lindas garotas. A paisagem cizenta foi esquecida, cada um contando um detalhe que o outro não percebeu, como o outro tinha ficado com cara-de-tacho, etc.

Alguns dias depois, o Kazuo foi deixá-los em Cumbica para o retorno à terra do sol. depois das despedida de praxe, um deles adiantou-se e falou,

 -Fiquei impressionado com a américa, com o Brasil. A gente via aqueles filmes americanso com todas aquelas mulheres bonitas e pensávamos que era só em filme. Não, é verdade mesmo, vou recomendar a todos os meus amigos que venham para cá conhecer esta terra linda.

Hoje toda vez que vejo uma gata passar num carrão lembro-me do Kazuo e nos primos dele, e pergunto-me se Deus também é japonês.

PS- O Kazuo comentou-me, depois que escrevi este post, que os primos não gostaram de água de coco: parecia agua potável com Ajinomo :-x to

Última atualização em Qua, 26 de Junho de 2013 19:22
 

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar