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A Ecologia segundo Ghandi PDF Imprimir E-mail
Escrito por Emilio Miranda   
Qua, 22 de Agosto de 2007 00:00

Eu tenho um amigo hindu, morador aqui da capital alencarina, que me disse uma vez que o Ghandi foi muitas vezes enganado na política. Deve ter sido mesmo. Entre a pressão interna e a do império britânico que relutava em cumprir o acordo de dar a independência à Índia depois do apoio de seu povo ao esforço na II Guerra Mundial, um homem poderia não só cometer um erro, mas vários. Ele, por outro lado, conseguiu concretamente a atual condição de independência da Índia. O que não foi tarefa das mais fáceis.
Porém, não quero falar da dimensão política de Ghandi. Vou comentar uma outra menos conhecida faceta da sua atuação: a ecológica.

Eu apreciava deveras o espaço que o jornal Hindustan Times dava no verso de sua primeira página aos fragmentos de pensamentos de personalidades da vida indiana. A maioria desconhecidos de nós. Mas naquela manhã ao tomar o café no hotel que fiquei em Nova Déli, vi uma citação de Ghandi, que resumo aqui,

"Se a Índia quiser ficar rica como a Inglaterra, o planeta não agüentará."

A frase caberia para a China também. E mais ainda para ambas-, se é que se pode destruir o planeta mais de uma vez. Chamou-me a atenção que Ghandi percebeu, muito antes da consciência ecológica atual, o perigo que representa o capitalismo globalizado para a existência da espécie humana. O capitalismo moderno precisa de um sistema de fluxos. Fluxo de matéria-prima desde da extração, passando pela armazenagem e transporte chegando à unidade processadora. Fluxo de capitais partindo do crédito, emissão de papéis em bolsa ou reservas próprias, passando pelo sistema finaceiro para chegar aos destinatários-, pagamento de fornecedores, de mão de obra, de serviços, etc-, e retornando à origem com um adicional que é o lucro. Fluxo humano, representado pela mão de obra empregada direta ou indiretamente, partindo de sua longa qualificação, passando pela sua seleção e aproveitamento e, finalmente,  chegando ao seu descarte. Fluxo de regras, representado pelo conjunto de regras, marcos regulatórios, dispositivos legais, normas de padronização, normas de intercâmbio, fóruns de discussão de disputas que os estados-nações têm de manter para sustentar a febril atividade.

Ora, fica claro que este tipo de atividade levará a um colapso do organismo que no caso é a nossa casa: o planeta Terra. Ghandi notou isto à sua maneira. Penso que a emergência de uma solução para a independência indiana tenha levado-o a prospectar saídas para o torniquete inglês que sugava o sangue da vaca indiana como um carrapato. À sua maneira conduziu a luta de libertação, colocando-se em uma posição ética que a culta sociedade britânica reconheceu e não tinha como revidar civilizadamente. Então, partiu para a violência o que só fez piorar a situção para o império britânico que perdeu a colônia e a dignidade como nação.

Recentemente, li o delicioso opúsculo "Vislumbres da Índia - Um diálogo com a condição humana" de Octávio Paz. Este mexicano ilustre, além prêmio nobel de literatura foi embaixador mexicano para a Índia e o Nepal. Com sensibilidade rara, digna dos gênios, ele discorre sobre a grande nação hindu. Indico como leitura obrigatória para quem quer conhecer a Índia. Pois bem, lá pelas tantas encontro uma recriminação à postura do Ghandi discutida aqui. Octávio Paz disse não concordar com esta visão de Ghandi, por que ela nos levaria de volta à Idade Média. Sem recursos tecnológicos, o homem voltaria a sua condição mofina, sem perspectivas. Sem automóvel, celular, televisão, sem computador, sem editoras, sem máquinas fotográficas digitais, sem Prada ou Armani, enfim, sem o mp3 player o que seria do homem?

Seria aquilo mesmo que o Octávio Paz observou: um homem da idade média. Todavia, lembro que não necessariamente pior do que o atual. Por que o homem atual padece de miséria humana no meio de opulência material. Um estranho paradoxo. Ele é um jogado de um lado para outro na grande maré do marketing. Ele não sabe o que fazer com os inúmeros botões de seu controle remoto, nem com as várias alavancas da caixa de redução de sua mitubish pajero full. Ele sabe que deve possuir todos os gadgets e marmotas hi-tech. Mas nem usá-las, ele sabe direito. A tudo ele se permite. Menos ao cuidado com seu corpo e sua mente. Todo tipo de extravagâncias e excessos, mesmos que para isso perca sua sanidade. Por fim, um terror se abate sobre o homem moderno, a terrível constatação: a farra não é infinita. Não pode durar para sempre. A sua descendência está ameaçada. Os filhos, dos filhos de seus filhos terão de lutar por pouco. Um pouco de água, um pouco de pão, pois nada restará. O ar, a água contaminados. O solo exaurido. Muito sangue verter-se-á em troca do pouco que restou. Os verdes campos serão só uma vaga lembrança. Tornar-se-ão mitos de uma segunda idade de ouro que, assim como a primeira, foi perdida para sempre.

Esta resposta de Ghandi para a Inglaterra, ao modo como ela operava, foi antes de tudo uma resposta ética. Uma ética baseada no cuidado. Cuidado consigo e o seu corpo, cuidado com os meus, cuidado a comunidade seja ela humana ou não e cuidado com o planeta. Esta posição era e é completamente oposta à logica fria, anglicana e protestante, da acumulação por intermédio do fluxo de materiais e capital.  

Permito-me discordar do Octávio Paz. O mundo de Ghandi, apesar de lento e despojado, seria o melhor para mim, para minha esposa, para meu filho e a descendência dele.

 

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