Emilio Miranda

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Homem de Plástico PDF Imprimir E-mail
Escrito por Administrator   
Sex, 07 de Setembro de 2007 14:28
Eu estava em São Paulo ná época da exposição de corpos plastificados Corpo Humano: Real e Fascinante (continuação...)


A minha esposa convidou-me para juntos visitá-la, mas neguei-me. Mêdo não foi. Já socorri um acidente de carro com dois mortos e uma sobrevivente (ela teve várias paradas cardíacas em nosso veículo todas vencidas pelo meu saudoso amigo, o anestesista Marcondes Filizola). Vi também os destroços do boeing da Vasp que se chocou contra a serra da Aratanha em Pacatuba, logo depois do desastre. Então, no quesito necrofilia já me dou por satisfeito. Mesmo assim não conseguia elaborar a recusa. Só sentia que não deveria ir.

De volta à Fortaleza enceitei a leitura do livro "O Homem sem Gravidade", uma entrevista com C. Melman conduzida por J. P. Lebrun. Logo no início, Melman usa como exemplo a dita exposição. Exemplo de como o homem atual rompeu com os limites psíquicos usuais para tornar-se apto a um gozo desenfreado. De imediato reconheci que o meu entrave foi de não querer ultrapassar os meus limites. Intuitivamente, tive esta propensão e a segui sem querer entrar em polêmica: foi uma limitação própria, íntima.

Reconheço nesta limitação um padrão discernível. Um paradigma que remete, em primeira instância, a uma sacralidade do corpo humano. Mas, se olharmos atentamente, poderemos perceber que esta limitação não é única. Faz parte de um conjunto delas que parecem compor a psique humana. Melhor, que a delimita e que transcende esta aparente sacralidade.

Para dar um exemplo, posso invocar a limitação de memória de certos eventos da nossa vida. O que aconteceria, se por algum  arte qualquer nos lembrássemos da hora do nosso nascimento. A primeira coisa que me ocorre é que eu sentiria certa clautrofobia. Talvez, uma certa agonia por que eu pensaria logo em respirar, mas estaria envolto em liquido amniótico e sendo empurrado por uma força titânica e interditado por uma saída exígua. Neste panorama, vemos que a falta de lembrança deste momento é uma medida protetora, engendrada sabe-se lá como, pela nossa pisquê. Então, o padrão discernível é do tipo protetor: existem certos eventos que devem ser encapsulados para que possamos obter um certo grau de conforto para estruturarmos o nosso mundo, enfim, a nossa vida. É claro, que para exercer uma atividade de necropsia, por exemplo, os profissionais da área necessitam quebrar estas barreiras protetoras e, inclusive, relevar a sua própria condição futura, a condição humana de finitude. A sociedade deveria valorizar o esforço destas pessoas, por que serve de contenção para que estes eventos limítrofes da psiquê não fiquem como que soltos, circulando por  esferas maiores que os recintos dos necrotérios.

Voltando a perspectiva pessoal, fiquei reconfortdo de que a minha percepção esteve sintonizada com minhas defesas. Por que, amiúde, nós minamos a nós mesmos imperceptívelmente. Daí nos vemos envoltos numa ola irrestível, avassaladora, puxando-nos para direções indesejáveis. 

Milhares de pessoas desfilaram diante dos cadáveres plastificados  primeiro em Berlim, depois em Nova York, Tóquio, São Paulo e várias outras cidades. A nossa ânsia pelo objeto já transcendeu a sua manisfetação. Nos interessa agora os seus interstícios, enfim as suas tripas. Não nos basta a beleza sensual da mulher. Queremos ver seus recônditos que elas, solícitas e audazes expõem nas praias e logradouros. Até mesmo nas igrejas chancelando o fim do respeito ao sagrado. Esta disposição tem como conseqüência a perda do objeto simbólico, juntamente com o emprobecimento da linguagem que lhe dá suporte. Como a  estruturação do nosso mundo  depende deste simbolismo, creio que estamos presenciando o nascimento de um novo mundo. Que tanto pode embutir um fim trágico da raça humana como, por outro lado, pode levar-nos a novos patamares nunca dantes atingidos.

Pois bem, hoje está claro para mim o quanto a nossa civilização ocidental está andando no fio da navalha. Descartando estes limites, esvaziando o céu de anjos e deuses, abrimos diante de nós um abismo que, por enquanto, têm frágeis para-quedas como retaguarda: um frívolo consumismo e um narcisismo desenfreado. Encapsulados dentro de nossos veículos, hipnotizados diante de nossos tv's, berrando em nossos celulares, navegando pela web estamos todos engolfados nesta maré, agoniados, aflitos, sem fôlego ou perspectivas. Por outro lado, pode ser que estejamos nos descartando de uma pele, nos preparando para um novo ciclo,  para novas possibilidades. Assim como fazem as serpentes.


 

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