Emilio Miranda

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Salvador da Pátria PDF Imprimir E-mail
Escrito por Emilio   
Ter, 10 de Junho de 2014 15:07

Já faz algum tempo que eu vinha falando para a minha esposa e alguns amigos: a classe política está cavando a sua própria cova, agindo contra a Política. Esta minha opinião não é original. Ela é calcada nas minhas parcas leituras de Hanna Arendt bem como outras obras sobre política e história. Por isto, não me surpreendi ao ler um artigo do ex-presidente Fernando Henrique no Estadão sobre uma conversa que teve com a presidente e alguns outros ex-presidentes que estavam a caminho do funeral de Nelson Mandela no avião presidencial. Resumidamente, ele estava preocupado com o rumo da política no Brasil e pediu para que eles todos juntos apoiassem a tão propalada reforma política antes que o cenário se degenerasse mais. Segundo ele, os dois próceres do PT no avião rejeitaram o pedido. Finaliza o ex-presidente eu seu artigo, dizendo temer o aparecimento de um salvador da pátria quando a situação política no Brasil não pudesse ser mais controlada pela nossa democracia representativa.

 

A minha esposa, do alto de sua experiência psicanalítica, opinou que o Fernando Henrique estava equivocado num ponto, o salvador da pátria já existe, não precisa ser gestado. Rapidamente, percebi a argúcia de seu argumento e, desolado, tive de concordar com ela: o salvador da pátria brasileira já existe só que, como o anticristo antes do Armagedon, que reduzirá às cinzas os ingênuos e à servidão os seus acólitos, ele está astutamente escondido. Mas, ele, aqui e acolá, mostra as suas fauces, normalmente em tom de brincadeira e a mais das vezes para a imprensa estrangeira —  tem muito político que de tão esperto, morreu de esperteza, já dizia o finado Tancredo. Então, o nosso salvador da pátria está agindo um tanto atabalhoadamente, deixando o escaninho com mais frequência do que recomendaria a prudência o que pode demonstrar que ele avalia que chegou a hora de retirar a sua máscara e mostrar a sua face totalitarista para a patuléia. Estava eu, ruminando estes pensamentos cavernosos, quando fui informado pelo noticiário da criação do sistema nacional de participação social que ficará a cargo da secretaria-geral da presidência da república. Ora, eu cá embaixo da minha ignorância política, percebi de pronto a criação de um soviete. A imprensa marrom está dizendo que isto é uma manobra bolivariana, o que é uma grande bobagem. Isto é puro leninismo e tem um objetivo bastante claro: manter-se no poder no tempo futuro. O salvador da pátria tupiniquim resolveu, definitivamente, colocar a sua falange em ordem de marcha. Só que toda manobra envolve riscos e um deles é o de aparecer a luz do dia. Um outro, é de ter seu poder de alguma maneira reduzido, pois a falange pode ficar fora de controle. De onde vejo, a manobra parece infantil ou no mínimo desgastada. Mas, o propósito é sério e, para mim, sombrio. Chega o momento, em que como cidadão com algum grau de consciência, tenho que tomar uma atitude. E por isto, estou escrevendo estas linhas. É preciso dizer claramente que o Brasil como nós conhecemos está em perigo. Quem promove a criação de uma instância de controle como esta que foi proposta, não está para brincadeiras.

A democracia direta, de fato, existiu na Grécia antiga. Aqueles que a apregoam para uso no presente, desconhecem, ou se fazem de desentendidos, de como ela era aplicada no passado. Em poucas palavras, a sociedade grega era uma do tipo excludente e a política doméstica era realizada no limite geográfico de uma cidade. O cidadão teria todos os direitos se fosse eupátrida (filho de família que fundou a cidade), varão e primogênito. Do contrário, ele teria algum direito ou nenhum. Por exemplo, um homem que fosse o segundo filho de um casal patrício só teria acesso a um tribunal se o pai dele, ou o irmão mais velho no caso de pai falecido, encaminhasse a demanda. Da mesma forma no caso de uma cidadã ou no caso de um servo. Se fosse um estrangeiro que morasse na cidade como um artesão, por exemplo, ele, simplesmente, não teria acesso ao tribunal. Esta maneira de governar foi aplicada com relativo sucesso durante grande período da história grega. Mas, isto não significa que ela poderia ser válida em outro contexto. Então, o formato moderno de democracia representativa tem razão de ser. A democracia representativa é a forma mais coerente de governo para a nossa época e, principalmente, num país do tamanho do Brasil. A democracia representativa tem problemas? É claro que tem, mas isto não significa que ela deva ser mudada para um sistema que, além de infantil, mostrou-se, no mínimo, ineficiente para algum estado moderno. Um dos mecanismos importantes da democracia representativa é o controle a posteriori: se o representante não tiver tido um desempenho esperado, basta não votar nele na eleição seguinte. É por causa deste tipo de controle que o PT saiu com esta ideia de controlar indiretamente a administração pública federal. O partido pode estar com medo de perder as eleições presidenciais. E isto não é ruim para a democracia brasileira porque um partido não pode se perpetuar no poder, independente de qual matiz ele seja. O fato tem também uma outra dimensão, esta também auspiciosa: da maneira que foi feita, demonstra que o PT não tem o controle que deseja das outras instâncias da república, quais sejam, o Legislativo e o Judiciário. A mudança foi realizada no âmbito de um decreto do executivo, e por isto, não tem força de lei. Por isto, é prudente votar na próxima eleição, principalmente, na oposição desta vez. O partido que age assim está fazendo o anti-jogo democrático. O PT não merece mais a nossa confiança, sob nenhum pretexto. Nem mesmo de proteger os mais pobres. Se o leitor tiver alguma dúvida basta procurar um pouco sobre o holocausto ocorrido na antiga URSS sob o comando do camarada Stallin e dos diversos sovietes que compunham a máquina de governar mais danosa para o povo trabalhador em qualquer tempo. Os números de mortos por fome, para não falar dos fuzilamentos e outras formas de matar mais tenebrosas, deixariam outros tiranos pálidos.

Toda vez que necessito esclarecer uma questão para meu foro íntimo, recorro aos clássicos para não cair no descuido de elaborar algo desnecessário ou sem valia. A maioria das situações que passamos já foram, de alguma maneira, vivenciadas. A questão que aludo aqui é a da natureza da democracia. Neste ponto, deixo o leitor com um discurso proferido por um grande líder político em 08/12/1945 para um parlamento,

...Mas surge a questão — e podemos permitir-nos refletir sobre ela por um momento — de saber quem são os inimigos da democracia, e como interpretar a palavra democracia. A ideia que faço dela é que o homem simples, humilde comum, homem do povo que sustenta mulher e filhos, que sai em luta por seu país quando este se acha em dificuldades, que comparece às urnas nas ocasiões adequadas e coloca seu X na cédula eleitoral, mostrando o candidato que deseja eleger para o parlamento, minha ideia é que este homem constitui o fundamento da democracia. E é também essencial para este fundamento que este homem, ou tal mulher, faça isso sem medo e sem forma alguma de intimidação ou coação. O cidadão marca sua cédula em rigoroso sigilo e, depois os representantes eleitos se reúnem e decidem, juntos, que governo — ou até, em tempos de aflição — que forma de governo desejam ter em seu país... (Churchill, W. Memórias da II Guerra Mundial, volume 2, pg 1014)
Última atualização em Ter, 10 de Junho de 2014 18:24
 

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