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Bandeiras, egos inflados e pouca cidadania PDF Imprimir E-mail
Escrito por Regina Stellin   
Qui, 29 de Setembro de 2011 21:16

Aqui estou de novo, num domingo frio e ensolarado de julho, a falar de brasileiros. Nenhum em particular, mas de todos no geral.

Eu e minha pequena família costumamos viajar, na medida do que os salários, descontados a enorme quantidade de impostos, nos permitem, para os lugares possíveis do nosso bolso e do nosso desejo. No geral, escolhemos o exterior, porque turismo nacional costuma ser muito caro e de qualidade duvidosa. Esta já é uma estranheza e tanto, ter que levar o dinheiro do turismo para fora.


Não, não vou falar das viagens, embora seja um dos meus assuntos favoritos contar das diferenças, da multiplicidade de formas coletivas e individuais do humano. É onde sempre recai meu olhar. Minha atenção sobre as nuances humanas não é um interesse mórbido, mas uma paixão, alimentada pelos anos de trabalho na clínica psicanalítica.

Onde quer que a gente vá, sempre topamos com brasileiros. São fáceis de localizar, pois costumam ser muito ruidosos. Parecem, muitas vezes, ser do tipo "cheguei". É tradicional. Lembro-me de um dia em Buenos Aires onde, ao nos aproximarmos de um restaurante onde iríamos almoçar, ouvimos gritos muito altos. Pensei comigo, devem ser brasileiros... Estou boa de adivinhação, eram quatro casais (em grupo piora), já bastante alcoolizados, cantando, tomando de assalto os instrumentos de um palco sem autorização, sendo olhados pelas garçonetes, com olhos de espanto e preocupação, com um certo receio e dúvida sobre que atitude tomar. Ao invés de sentar na mesa, queria mesmo era entrar embaixo de uma delas! Pensei em fazer o pedido em alemão, o que impediria qualquer tipo de identificação entre nós e o grupo alucinado. Só um problema: eu não falo alemão e o cardápio era em espanhol.

Sempre quando contam de suas viagens, costumam enfatizar como os outros povos são pouco receptivos, distantes e frios. Os alemães são frios, os franceses são antipáticos, os ingleses tem nariz empinado, os holandeses não se aproximam e os búlgaros são muito medievais.

Brasileiro tem bastante facilidade em rotular outros povos, que no geral visitou muito rápidamente, pouco domina sua língua e sua história, mas se autoriza uma rápida tese de doutorado sobre o povo alheio, entre uma compra e outra.

Essa parece uma característica curiosa e tem em comum o fato de ser uma crítica depreciativa do outro bastante narcísica. Traduzindo a crítica: "Olha, eu sou brasileiro, vim te visitar e você não me recebe de braços ebertos (mesmo não sabendo quem eu sou), mas olha eu sou brasileiro! E isso, deveria ser o máximo para os outros!" De onde será que tiramos a idéia que os muitos outros povos devem ser afetivos conosco imediatamente?

Além dos impostos altos, temos também egos bastante inflados. Em outros países ou por aqui, em eventos, é costume carregar a bandeira verde e amarela. Já cruzei com muitos conterrâneos por países outros, enrolados com nossa bandeira nacional. Parecem dizer: "Olha, sou brasileiro, não é o máximo?"

Não é cena que se precise tomar um avião para se ver. Na televisão, é bem frequente. Parece que, além de um bom ego inflado, somos nacionalistas, temos orgulho de nossa nacionalidade. Bacana, não? Até aí, fora o espalhafato, poderíamos pensar que vai tudo bem no nosso lado do Equador.

Bom, uma identidade nacional e uma identificação com o coletivo, deveria nos conduzir, na mesma intensidade, ao exercício da cidadania. Isto implicaria cuidados com nossa terra, nossa gente e reivindicações de responsabilidade dos governantes nesses cuidados.

A cobrança política, daqueles que são sustentados pelo nosso trabalho pesado cotidiano, é uma das condições do exercício de cidadania, mas vou deixar para outra crônica. Outra condição relacionada ao orgulho de ser brasileiro e desfilar bandeiras e egos, seria o cuidado com o bem público. Enfim, deveria ser nossa carta de apresentação e currículo. Nosso país é bonito pela própria natureza, mas não resiste sem cuidados.

Comecei contando que era um domingo ensolarado. Então, fui ao parque andar de bicicleta. No meu caminho tem uma avenida, onde houve uma saída matinal de uma romaria para uma santa. Pensei que tinha errado o caminho e, ao invés, da avenida, tinha entrado em um chiqueiro. Lixo por toda parte, copinhos e garrafas de água e todo tipo de papel. No parque, as pontas de cigarros estão se amontoando em volta dos bancos e eu fico imaginando se surgirá uma floresta de tabaco, além de todo tipo de saquinho de salgadinhos, chicletes e que tais, de acordo com a temporada de férias e o aumento de famílias no parque.

Com trinta e alguns anos de exercício da minha profissão, ando sem entender como o orgulho nacional não tem correspondência no cuidado ao que é nosso. Será que é "para inglês ver"? Será que é "só para aparecer"? Hipóteses superficiais. Mas vou finalizar, ainda estonteada e profundamente envergonhada do meu povo quando vejo tanto descaso, com aquela vontade que também brasileiro sempre tem, mudar de país.

Bom, como boa brasileira, agora quem vai rotular sou eu: "Brasileiro é muito mal educado!"

Última atualização em Qua, 30 de Novembro de 2011 20:17
 

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