Emilio Miranda

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Tropa de Elite PDF Imprimir E-mail
Escrito por Administrator   
Seg, 15 de Outubro de 2007 19:22

Fui ver, com certo receio, o badalado filme Tropa de Elite. Receava tratar-se de um folhetim chulo. Enganei-me. Domingo pela manhã, vi vários posts na internet. Li também os comentários de Veja, a qual não sou leitor habitual.

 

 



O filme em si acompanha a triste tendência atual de retratar fielmente a realidade. Como peça de  entretenimento ficou muito aquém das minhas expectativas. Fez melhor figura como panfleto social.

A marcação de papeis é flagrante desde do início da película. Bandido é bandido. Já a polícia foi retratada com seus dois papeis atuais: a polícia corrupta e polícia honesta. A classe média foi rotulada como murista: trafega nas duas instâncias, o asfalto e a favela, displicentemente. E assim o filme vai numa marcação maniqueísta do drama. Uma tristeza como peça artística, mas de uma pedagogia exemplar.

Eu achei o efeito muito pedagógico para a sociedade brasileira. Nós temos uma tendência a relativizar as questões. A nossa constituição é o exemplo maior disto: vai da terra ao céu sem balizar a maioria do trajeto. Somos meio que indefinidos nas proposições. As nossas posições são frouxas, maleáveis. Isto nos traz muito sofrimento. Por que apesar dos espíritos mais esclarecidos não necessitarem de uma moral, a patuléia precisa sim de uma. Não precisa ser de tendência religiosa. Bastaria uma bem simples, com coisas do tipo: cuidado com o próximo, respeito aos mais velhos, não matar, não roubar, etc. Mas não, os nossos pedagogos, sociólogos, filósofos e afins saem-nos com tratados caudalosos e transcendentais que terminam por influenciar a nossa vida republicana produzindo uma legislação descolada da realidade, uma prática política distorcida, uma irresponsabilidade no âmbito do governança e um alheamento da classe média. Esta, por sua vez, abdicou da educação dos filhos que passaram a ser depositados em colégios caros, única e exclusivamente para passar nos vestibulares das universidades públicas. A classe média está alheia. Encapsulada nos seus carros com ar-condicionado e película escura nos vidros. Os desvalidos, então, vendo que não existe exemplo de quem deveria dar, simplesmente, partem para a predação de patrimônio e vidas. Viraram feras humanas secundadas pelo espírito maligno e desagragador da elite.

Notei também que uma característica do estado brasileiro aflorou no filme: a eficácia na eliminação de problemas. O estado é na maioria das vezes inepto. De quando em vez ele acorda e aniquila aquilo que o está pertubando. Foi assim na guerra do Paraguai, no aniquilamento dos índios do Cariri e dos pretos dos Palmares, na supressão da revolta da ilha do Desterro, dos farrapos e de Canudos. Fomos à II guerra e com logística americana subimos o morro do Cassino debaixo de metralha e dos tiros bem regulados dos canhões Krupp de 70mm. O estado derrotou Lampião, o que não foi pouca coisa. Por fim, depois de mandar recrutas para o Araguaia os generais calibraram a máquina e simplesmente trucidaram os guerrilheiros do PCdoB. Pois bem, o BOPE é uma faceta deste estado perdulário, corrupto e ineficiente, mas que guarda em seu cerne um embrião aniquilador de asperezas, vamos dizer assim. Blindado das influências políticas pelo próprio aparato político do estado do Rio de Janeiro, o BOPE consegue cumprir o que lhe foi designado. O filme mostra um ariete do estado sarjando uma pústula social. A lancetada está bem documentada nos documentos de qualquer exército regular: eliminação incondicional do inimigo e intimidação da população.

No entanto, nós devemos ter cuidado com estas instâncias do poder público que estão autorizadas a agir no limite da lei. Numa guerra convencional existe um mínimo de civilidade garantida pela convenção de Haia. Eu não sou ingênuo para saber que esta convenção já foi, e continua sendo, desrespeitada. Mas, os líderes japoneses e nazistas que mataram prisioneiros aliados terminaram pendurados pelo pescoço. Existe uma supra-instância, a do futuro vencedor, lembrando insistentemente as conseqüencias de atos bárbaros nas guerras modernas.  Nesta guerra do morro, por outro lado, o BOPE não faz prisioneiros. Ele simplesmente aniquila o seu alvo. É bem verdade que o estado americano usou a bomba atomica contra o Japão como um bypass para apressar o fim da guerra. E deve ter entrado também nas considerações o custo em vidas americanas que uma invasão do Japão provocaria. O fato é que o estado americano cometeu um pavoroso crime de guerra matando milhares de civis o que lhe deu um status de estado criminoso. Voltando aqui para o BOPE, a guerra que ele desenvolve contra o morro não tem responsáveis. A supra-instância, o estado carioca, já chancelou a matança. Nesta posição, o BOPE pode arrogar-se a muita coisa. Inclusive virar-se contra o próprio estado que o aparelhou. Como todo instrumento cortante, ele é ao mesmo tempo útil e perigoso.

Última atualização em Qua, 26 de Junho de 2013 14:58
 

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