Página do Emilio Miranda :: O Himeneu Travestido
O Himeneu Travestido Imprimir

By Administrator, on 02-01-2010 09:28

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Published in : , Minhas Reflexões sobre a Vida Contemporânea


Vi a tela restaurada Himeneu travestido assistindo a uma dança em homenagem à Príapo, de Nicolas Poussin, no MASP lá pelo dia dia 13 deste mês de dezembro. Eu sempre digo para a minha esposa que eu tenho de ver os clássicos pois sou muito ignorante em matéria de arte. E a tela ficou linda. O pintor colocou nela não só uma cena pictórica de rara beleza. Inseriu também dois mitos gregos inteligentemente entrelaçados. A tela tem uma mensagem insuspeita para a sociedade brasileira.

A cena é um culto a Príapo deidade filha de Dionísio e Vênus. O centro da cena é dominado pelo ídolo fálico com seu sorriso maroto. Ele representa a fertilidade e pode representar também o seu contrário, a destruição. À sua frente, uma mulher está agachada em reverência. À sua esquerda, uma outra presta-lhe culto com uma oferenda e atrás dela uma pequena banda tira acordes de seus para embalar a cena com uma atmosfera ao mesmo tempo diáfana e festiva. A direita e a esquerda do ídolo um grupo de mulheres dançam enlevadas. A cena é bem ariana pois nota-se o mesmo enlevo nas gravuras dos Hare-Krshina que retratam os fiéis dançando inebriados para o ídolo do Senhor Krshina. No canto direito da tela o Himeneu trai-se pois está calçado com sandálias masculinas enquanto as priantes estão todas descalças. Ele está vestido como elas e seu semblante é delicado como um de uma mulher.

O tema central do culto é o apaziguamento da deidade para que ela seja propícia, fertilizando as mulheres e assim dando continuidade a sua estirpe . A maneira como isto é solicitado à deidade é toda especial. O culto é reverente e alegre. O engajamento das fêmeas é total. A deidade é apaziguada para não cometer seus excessos típicos como o estupro e a violencia física contra as mulheres.

O tema secundário é o empenho do Himeneu por uma mulher que está prestando culto. Ele se travestiu para aproximar-se de uma das priantes. Ele personifica a deidade mas, enigmaticamente, ele não se apresenta como tal, um varão pronto para consumar a conquista. A interpretação clássica indica que ele está tentando se aproximar de uma mulher pertencente a uma classe aristocrática sendo ele de uma classe humilde. Mas, pode não ser assim que aconteça na tela, como eu demonstrarei a seguir.

As duas situações da cena revelam a postura de e do cuidado. As que prestam o culto o fazem com cuidado. Elas sabem que a faceta destrutiva de Príapo atenta para a sua integridade bem como a de toda a sociedade. Por isto, o ídolo deve ser satisfeito para que externe sua faceta construtiva, fecundando e dando gozo. A Divindade para o bem geral deve ser satisfeita, inclusive se necessário com algum tipo de encenação mais dramática, com mais excessos.

Já o cuidado do Himeneu tem por princípio o objeto amado além da própria vida. Ele está no meio de um culto feminino. É sabido que as sacerdotisas e o séquito de mulheres adoradoras na Grécia antiga não aceitavam homens em seus cultos e se este fossem descobertos eram sacrificados no ato. O culto é iminentemente dirigido para o transcendente, o imaterial. A figura masculina representa a imanẽncia, o ente material que será desejável depois mas não no momento da invocação da Divindade. Ele respeita este espaço e arranja uma maneira de se acercar do objeto de seu desejo mas sem que isto ponha em risco a sua vida.

A sociedade brasileira e por extensão a ocidental perdeu o eixo do cuidado. A Divindade, por exemplo, que tem um papel agregador, constituidor, reparador e apaziguador perdeu seu status para o objeto de consumo. Este objeto está no plano material e não tem per si o poder de aglutinar. Muito pelo contrário, a falta de foco e a dispersão são seus atributos inerentes pois o plano divino, o plano  da trasncendência forma um ponto fixo, inalcansável, decerto, mas fixo o suficiente para capturar a atenção ou vontade do indivíduo. As pessoas não percebem o perigo que se expõem quando, inadvertidamente, provocam ou entram em situações as quais forças espirituais ou psíquicas, tão velhas quanto a própria humanidade, são invocadas.

Jung alertou várias vezes sobre as consequencias que poderiam advir pelo fato dos nazistas deliberadamente estarem acordando na alma alemã a lembrança e o culto irresponsável de divindades nórdicas como Odin e Thor. A sensível alma alemã rapidamente capturou a mensagem de Hitler e seus asseclas e puseram a rodar o inferno na terra que era exatamente o que a trupe desejava. Estas divindades eram originalmente invocadas de maneira tal que traziam algum benefício para aqueles grupos de vikings navegantes, ora apaziguando os raios nas tempestades, ora fornecendo vigor para o combate. Mas, a falta de cuidado e um objetivo torpe foram marcas de seu culto no tempo da Alemanha hitlerista.

A situação atual é pertubadora pois não existe um foco gerador, uma causa a qual se possa apontar para a falta de cuidado com estas possibilidades ou facetas trágicas do ser humano.

Vejamos o caso da Geysi, a moça que provocou um tumulto numa universidade em São Paulo. Não entro no mérito da questão se ela está certa ou não. O que chamou-me a atenção foi que a cena trágica que ela provocou tinha uma característica: o descontrole. Ela inadvertidamente provocou um inferno na terra. Uma cena trágica que por sorte não acabou em ferimentos ou morte. A sua falta de cuidado foi a de ter provocado Príapo diretamente. Ela não o invocou, acalentou ou acercou-se dele em terreno seguro que é o local de culto. A mulher ocidental arroga-se a fitar o daemon diretamente na figura de seu agente terreno. A mulher ocidental não sabe mais, ou desaprendeu a lidar com a libido masculina. E isto tem um preço que é o espetáculo trágico que vimos nas manchetes.

Enfim, a antiguidade clássica tem muito a nos ensinar por que nós não mudamos muito. Somos ainda capazes de alçar alturas como de nos lançar sobre o negro abismo como seres humanos.


Last update : 24-01-2010 10:59

   
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