De Bodenauta a Internauta

Emilio Luciano de Miranda e Silva

2004

Hitorial de Revisões
Revisão 0.515/01/2005

Índice

A Notícia
Contatos de Primeiro Grau
O Ferramental
A Rebordosa
A Fênix do Serjão

A Notícia

Realmente eu esforçava-me, mas nunca me passou pela cabeça que eu um dia viraria internauta. Primeiro, porque vivi o tempo do Brasil Grande, Ame-o ou Deixei-o que de tão grande não cabia dentro de si, escorria pelo ladrão e ainda exudava xenofobia. Segundo, por que eu gostava mesmo era da vida do campo, das carreiras à cavalo nas caatingas atrás dos bodes de meu padrinho. E terceiro, por que havia a Embratel, um monopólio monolítico que se interpunha entre um acossado cidadão contribuinte e outro afortunado possuidor de uma linha telefônica (teve época que era mais negócio ter um telefone que um terreno).

Pois bem, estava eu exercitando a minha leitura de bordo com a Folha de São Paulo, em um vôo para Fortaleza, lá pelos idos de dezembro de 1994 quando deparei-me com uma chamada assim:

A EMBRATEL convoca interessados para um projeto piloto de internet. A inscrição será feita através do número tal e tal...

Confesso que fiquei excitado como quando ia montar no burro da carroça lá na fazenda. Mas, depois da euforia inicial, veio a ressaca: o que era mesmo Internet? Será que era igual a uma BBS [1]? Ou era melhor? Pelo nome era uma rede, isto não tinha dúvida. E o inter era de interligado ou de interno? Se fosse interno, como era que eu teria acesso? Poderia ser uma rede de BBS? Porém, havia um panarício. E ele estava no meu arquivo de trabalho em Fortaleza.

Contatos de Primeiro Grau

Fazia um tempo que uma firma de São Paulo mandara-me um prospecto sobre pesquisa e compra de normas técnicas estrangeiras. Era vistoso e estava lá a primeira ciração que eu tinha visto sobre a internet. Uma das fontes que a dita firma usava para achar normas era a Internet. Li sofregamente o prospecto e para minha decepção não tinha muita coisa a não ser a citação. Toquei o telefone para Sampa, aonde ficava a firma, quando uma voz feminina, com sotaque caipira de erre enrolado, atendeu-me. Fiz então, vergonha das vergonhas, o que os hackers chamam hoje de engenharia social,

-Moça o que é internet?

Ela, então, passou-me o básico:

...que a internet era uma rede mundial que interligava computadores, que a gente trocava e-mail e pegava um montão de coisas tudo em inglês!

Noves fora o e-mail que eu não sabia o que era, aquilo batia com o que eu tinha deduzido no avião. Mas, outras águas haveriam de rolar por aquela ponte...

O Ferramental

Em um átimo, irrompeu na minha sala o Alexandre. O cara é um gigante bonachão de óculos fundo de garrafa. O corpanzil encimado por uma cabeça chata monumental. Além de bom papo, um fuçador inveterado das novidades técnicas. Ele mesmo um talentoso técnico eletricista que estava na empresa fazendo inspeção de um lote de produtos que sua empresa comprara. A minha mão esquerda ainda esquentava o telefone quando a direita catava no ar um disquete. Era uma apresentação do OS/2 WARP que eu nunca tinha visto mais gordo. Ele queria saber o que eu achava daquilo. Vimos a apresentação juntos. O recorte de jornal com a convocação da EMBRATEL queimava no meu bolso. Lá pelas tantas, escrito em bom português (dava para notar como a IBM levou a sério o negócio do OS/2): suporte a Internet com discador, protocolo TCP-IP, browsers Mosaic e Gopher. A coisa toda parecia uma conspiração. Decidi não contar nada a ele até que eu tivesse mais alguma informação. A noite fiz a inscrição. O telefone era no Rio e o sistema de cadastro era como uma BBS.

A Rebordosa

No outro dia, encontrei-me com um amigo de turma de engenharia e pela primeira vez participei as minhas excitações e angústias. Ele,

-Cara isto é coisa de gringo. Brasileiro não tem cacife prá estas coisas não. Isto aí não vai dar em nada e tú, ainda por cima, vai pagar um dinheirão prá a Embratel ou então ela vai mandar a Teleceará tomar o teu telefone. Tú vai dar uma de trouxa seu baitinga! [2]

O cara poderia ter razão. Por isto mesmo, eu resolvi não falar nada para o Alexandre, afinal era um cliente e eu poderia melar o comercial da minha empresa com uma loucura daquelas. Mas, eu ainda tentei com outro amigo engenheiro. Este foi mais cordato e ficou com o número do fone da inscrição. Fechei-me em copas e fiz um pedido do OS/2 Warp[3] pelo 0800 da IBM. Ou seja, na última semana de 1994 eu atirei-me em duas aventuras digitais e francamente eu estava cético. Será que era a minha verve de vaqueiro indômito, porém frustrado, que assomava à minha consciência para atanazar o engenheiro metódico e disciplinado?

Certo tempo depois, atrás de mim, eu ouvi a reprimenda:

-Você não vai largar isto não?

Virei e vi o muchocho de minha adorável esposa. Fazia três dias que a caixa do OS/2 WARP chegara e eu lá, feito um zumbi, atracado ao meu valente 386. O início foi meu esquisito. A Workplace Shell era uma coisa meio enigmática para quem tinha começado com um Sinclair de 2kb de RAM, evoluído para um CP /M e sofrido na mão do Windows 3.1. O SOM [4] tratava a impressora como se fosse um arquivo. Aquilo tudo me lançara,à força, a uma altura vertiginosa e o pior eu estava tentando entender. Mas, quando vi o meu 386 assobiar e chupar cana, com a multitarefa preemptiva do Warp, fui relaxando enquanto lia tudo sobre a internet no sistema de help do OS/2. Fiquei sabendo o que era correio eletrônico, sistema news, usenet, UCCP, TCP-IP, gopher, navegação www, etc. Tudo em tese, pois a Embratel não tinha mandado notícias.

Um belo dia recebi uma correspondência que mais parecia um contracheque. Quase rasguei o papel duplo,

A Embratel informa, o projeto piloto de internet será feito soménte com cidadãos de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. As outras cidades terão de esperar o fim do projeto que não tem data para terminar...

Lembrei-me da reprimenda de meu amigo e comecei a temer pelo meu telefone pois eu tinha feito a inscrição. Uma paranóia instalou-se em minha mente, pois do governo habitualmente só espero más notícias. Minha esposa, coitada, nem imaginava que eu, de maneira leviana, estava sorrateiramente pondo a perder o patrimônio familiar. Fiquei macanbúzio, pelos cantos, feito um barbatimão brabo na caatinga. Encismado, comecei a cultivar aquele sentimento horrível de inveja, misturado com desprezo, despeito e inferioridade que todo cabeça chata tem com os citadinos do sul maravilha.

A Fênix do Serjão

Já tinha o assunto caído no esquecimento quando uma semana depois, vi o então ministro das comunicações Sérgio Mota esbravejar na tv que a Embratel estava tentando estatizar a internet no Brasil. Mandou desregulamentar a operação. Cético estava, cético fiquei. Não iria enganar-me de novo, nem envolver meus amigos naquele imbroglio. Logo depois recebi um outro papelucho já com outros termos. Que eu era um feliz escolhido, patati patata e pumba: login e senha de acesso. O telefone que me deram é que era o problema, ficava no Rio. Apesar, do papelim azul dizer que a conta do interubano ficava por conta do projeto, eu é que não estava afim de arruinar finaceiramente o meu lar. O primeiro acesso que fiz durou exatos quinze minutos. E fiquei esperando a conta de telefone no final do mês para checar a intenção do governo. Isto passou-se na ultima semana de janeiro de 1995. O Windows 95[5] ainda estava por sair.

Senti-me um marajá, pois, a Embratel arcou com os custos do interubano de fevereiro à novembro de 1995. Vinte e quatro horas. Dalí eu tive noção, de como é gostosa uma teta desta grande república brasileira.

O que eu vi primeiro na internet? O sítio da IBM que tinha no marcador de preferências lá no Mosaic. O que eu senti? Raiva. Pelo governo jogar irresponsavelmente um batalhão de técnicos, cientistas e pesquisadores brasileiros na indigência digital, visto que sómente a elite das universidades federais tinham acesso, naquela época, à rede pelo backbone do CnPQ. Lembram-se do meu amigo que ficou com a outra senha? Pois bem, a esposa dele trabalhava no CPD de uma universidade particular que pediu emprestado o login e a senha dele para que o pessoal dela visse pela primeira vez a internet,

O projeto durou até novembro daquele ano. A Embratel cumpriu a promessa e não cobrou os interurbanos para o Rio. Finalmente, em dezembro de 1995 chegou o primeiro provedor privado de internet em Fortaleza, a Soliton que fez um acordo com o Banco Rural que era dono da BR Homeshopping, uma das primeiras provedoras do Brasil. Éramos um grupo de trinta engenheiros, bem esta é outra história :>)



[1] [1] Bulletin Board System

[2] [2] Expressão cearense, de uso restrito na capital e adjacências que tem o mesmo significado de bitola pronunciado à inglesa

[3] [3] Marca Registrda da IBM

[4] [4] System Object Model

[5] [5] Marca Registrada da Microsoft




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